Mudanças globais e segurança alimentar e nutricional, o que pode mudar nos próximos anos?

O BRICS – grupo político de cooperação formado pelo Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul – se reuniu recentemente para discutir a segurança alimentar mundial e os desafios envolvendo as mudanças globais. Parece irônico que esse tipo de discussão ocorra em um bloco do qual fazem parte três dos maiores produtores mundiais de commodities agrícolas. De fato, estudos mostram que a competição pelo uso da terra entre produção de commodities e produção de alimentos tem grandes impactos sobre a segurança alimentar. Porém, atualmente, as preocupações vão além desta questão pois, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), as mudanças globais constituem verdadeiras ameaça à segurança alimentar a nível mundial. Estas mudanças globais, que até pouco tempo pareciam longínquas, são realidade e começam a surtir efeitos, afetando a segurança alimentar de diversos países, principalmente os mais pobres. Quais são estes efeitos que podem afetar a vida de todo e qualquer habitante do planeta?

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> O que são as mudanças globais?

Muitos acreditam que as mudanças globais se resumem às mudanças climáticas, ledo engano. O clima é apenas um dos aspectos das mudanças globais, que, são, segundo o International Geosphere-Biosphere Programme,“mudanças em escala global na circulação atmosférica e oceânica, clima, ciclos do carbono, do nitrogênio, da água e de outros elementos, mudanças no nível do mar, nas teias alimentares, diversidade biológica, poluição, saúde e estoque de peixes. Porém, atualmente a humanidade se tornou um motor nas mudanças globais, portanto, o termo também engloba dinâmicas demográficas e econômicas.”

As mudanças globais podem ser, portanto, agrupadas em duas classes principais: as mudanças globais antrópicas e não-antrópicas. As primeiras são as que mais preocupam a humanidade atualmente. Os problemas mais discutidos são os fluxos de populações, a exemplo da emigração em massa do norte da África para a Europa , as desertificações que podem ser observadas em alguns países da África, a perda de biodiversidade que ocorre no arco de fogo na amazônia, e aumento das concentrações de carbono na atmosfera, entre outros.

> O que é Segurança Alimentar e Nutricional?

No Brasil, a Lei Nº 11.346, de 15 de setembro de 2006 define esse termo através do seu terceiro artigo da seguinte forma “A segurança alimentar e nutricional consiste na realização do direito de todos ao acesso regular e permanente a alimentos de qualidade, em quantidade suficiente, sem comprometer o acesso a outras necessidades essenciais, tendo como base práticas alimentares promotoras de saúde que respeitem a diversidade cultural e que sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis”.

> Relações entre Segurança alimentar e mudanças globais

Dentre as muitas mudanças globais observadas, pontuamos aqui três aspectos mais significativos para discutir a questão da segurança alimentar.

>> Fluxos Migratórios e segurança alimentar

Os fluxos migratórios fazem parte da história do mundo. Essa dinâmica geralmente é associada à insegurança alimentar e guerras no país de origem do imigrante, ou ainda à busca por fonte de renda. A relação entre fluxo migratório e segurança alimentar pode configurar um ciclo vicioso. O professor Thomas Lacroix em 2011 publicou um trabalho pela Universidade de Oxford que relata esse processo em alguns países do Commonwealth. Ele analisa que, em alguns países, um dos motores principais da emigração de uma região rural para a cidade, ou de um país para outro, é a insegurança alimentar. A emigração pode então gerar dois efeitos distintos no país de origem. Uma consequência benéfica pode ser a recapitalização de famílias graças às remessas vindas dos familiares que emigraram, mas em outros casos há uma redução na força de trabalho local resultando em aumento da insegurança alimentar – o que resulta num ciclo vicioso.

O professor Robert Mcleman escreveu um capítulo no livro Food Security and Sociopolitical Stability de 2013, no qual descreve a migração de populações rurais por trabalho em países em desenvolvimento ou em países pobres. Afirma que estes fluxos são essenciais porém extremamente instáveis, ao ponto de que qualquer variação externa, como as mudanças globais, podem acarretar em instabilidade na segurança alimentar tanto das áreas rurais quanto nos centros urbanas.

>> Desertificação e segurança alimentar

As Nações Unidas definem que a desertificação é atribuída a variações climáticas e a atividade humana, pois ocorre a partir de uma complexa interação entre fatores físicos, biológicos, políticos, sociais, culturais e econômicos. Essa dinâmica se inicia quando a temperatura de um determinado local se eleva e as precipitações reduzem, devido a mudanças climáticas; quando certa região perde sua cobertura verde ou parte importante dela; ou ainda quando há intensa utilização do solo para a agricultura a partir de métodos pouco conservacionistas.

A desertificação pode ter impactos graves, em particular sobre os fluxos migratórios e a insegurança alimentar. De fato, a desertificação causa diretamente a perda de terras próprias para a agricultura e há registros de populações se movimentando em busca de terras cultiváveis. Neste contexto, estima-se que, em 2020, 60 milhões de pessoas podem se mudar de áreas desertificadas da África sub-Saariana para o Norte da África e Europa.

>> Mudanças climáticas e segurança alimentar

A comissão européia define que as mudanças climáticas são provocadas pelo acúmulo na atmosfera de certos gases, em particular o dióxido de carbono, o metano e o óxido nitroso. Esses elementos ocorrem naturalmente na natureza, porém a atividade humana acelerou a sua concentração no ar. A camada desses gases leva a um menor fluxo de saída da energia solar que chega à Terra, aumentando assim a temperatura – pelo mecanismo hoje bem conhecido de efeito estufa – e promovendo alterações no clima do planeta.

Aziz Elbehri, pesquisador da FAO, organizou uma extensa publicação sobre os efeitos das mudanças climáticas. No capítulo dedicado ao tema a segurança alimentar, Elbehri comenta um estudo realizado com plantas cultivadas, oleaginosas e gramíneas. Os resultados mostram que o excesso de CO² na atmosfera pode mudar as características nutricionais das plantas, dando o exemplo as oleaginosas da zona tropical cuja composição em proteína pode chegar a diminuir. De maneira mais global, o pesquisador realça que as mudanças climáticas vão influenciar diretamente as migrações, os conflitos e a produção de alimento pelos agricultores.

> Estimativas

Segundo dados da ONU, a insegurança alimentar causou, em 2008, tumultos e manifestações em mais de 30 países. Entre 2011 e 2013, estima-se que uma pessoa entre oito passou por fome crônica. Doze milhões de hectares de terras aráveis são perdidos todo ano por causa da desertificação. Esses dados confirmam que as mudanças globais podem afetar a segurança alimentar de muitos países, sobretudo os mais pobres. Quais serão as ações que os governantes tomarão frente a essas problemáticas que se aproximam a passos galopantes?

> Referências http://www4.planalto.gov.br/consea/publicacoes/cartilha-losan-portugues https://www.nap.edu/download/9983 http://theconversation.com/what-is-global-change-6447 http://www.igbp.net/globalchange/earthsystemdefinitions.4.d8b4c3c12bf3be638a80001040.html http://www.srb.org.br/noticias/article.php?article_id=4907 https://nacoesunidas.org/mudancas-climaticas-ameacam-agricultura-familiar-nas-regioes-norte-e-nordeste-diz-centro-da-onu/ Lacroix, T. (2011). Migration, rural development, poverty and food security: a comparative perspective. Oxford: International Migration Institute, Oxford University. https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=-nZoAgAAQBAJ&oi=fnd&pg=PA229&dq=refugee+crisis+food+security&ots=ExQiCd0A_R&sig=u5NCuZw-S1R8Be-tOAeF_kVLHcw#v=onepage&q=refugee%20crisis%20food%20security&f=false http://www.unccd.int/Lists/SiteDocumentLibrary/Publications/NEW_Invisible_%20Front_Line_%20EN.pdf http://www.fao.org/3/a-i4332e.pdf http://ec.europa.eu/clima/change/causes/index_en.htm
Fonte: Portal do Consumo ResponsávelIlustração: Catarina Bessel  

Agroecologia na TV Câmara SP

A Prefeitura de São Paulo recebeu, no último dia 30, o Prêmio Desafio dos Prefeitos. A competição, criada pelo ex-prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, destaca as melhores iniciativas municipais de desenvolvimento urbano sustentável. Com o projeto “Ligue os Pontos”, o prefeito Fernando Haddad trouxe do México US$ 5 milhões para investir em um projeto de agricultura familiar em Parelheiros, na zona sul. Em entrevista ao Jornal da Câmara SP, o geógrafo e coordenador de projetos do Instituto Kairós, Arpad Spalding, falou sobre o assunto.

Confira a entrevista a seguir.

Fonte: TV Câmara São Paulo

Kairós lança aplicativo Responsa e Portal do Consumo Responsável

Mais completo mapeamento já feito nesse setor, aplicativo reúne bases de dados com iniciativas de consumo responsável em todo território nacional.

Foi lançado no dia 13 de outubro, o Responsa, um aplicativo que reúne em um só mapa restaurantes (que usam ingredientes orgânicos), feiras (de produtos justos, orgânicos e veganos), hortas comunitárias, grupos de consumo responsável e outras experiências de agroecologia e economia solidária.

Criado e desenvolvido em parceria entre o Instituto Kairós e a Cooperativa EITA, o Responsa é totalmente gratuito e permite que consumidores e produtores possam encontrar produtos, serviços e experiências educativas pelo GPS, marcar encontros e indicar novos pontos que ainda não estejam mapeados.

“Queremos que qualquer pessoa possa encontrar, perto de sua casa, escritório, ou até durante uma viagem, um restaurante que utilize ingredientes orgânicos, uma feira ou uma loja na qual possa encontrar produtos agroecológicos”, explica Juliana Gonçalves, coordenadora de projetos do Instituto Kairós. “A ideia é estimular a comercialização de produtos da economia solidária e da agricultura familiar, aproximando produtores e consumidores através de relações que podem ser mais curtas, transparentes e sustentáveis”.

MEME_0023Com interface amigável, disponível para celulares Android, o Responsa funciona em todo o Brasil e permite filtro por tipo de local (restaurante, feira, etc) ou município, e unifica um extenso banco de dados que inclui, já no seu lançamento, mais de 3.000 iniciativas ligadas ao consumo responsável em todo o país. Com o GPS ligado, o aplicativo ainda alerta ao usuário sobre iniciativas de consumo responsável mais próximas de onde ele estiver. “Este é o resultado do trabalho intenso de mais de um ano em que aliamos o melhor das tecnologias digitais e design com o refinamento e cruzamento de dados de diferentes fontes, para oferecer uma experiência completa ao usuário”, afirma Daniel Tygel, integrante da EITA, cooperativa responsável pelo desenvolvimento do Responsa. “Para garantir que o aplicativo realmente respondesse aos objetivos propostos, dialogamos bastante e contamos com o apoio de várias organizações do setor, tais como o IDEC (Instituto de Defesa do Consumidor), a ANA (Articulação Nacional de Agroecologia), o FBES (Fórum Brasileiro de Economia Solidária) e o FBSSAN (Fórum Brasileiro de Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional)”, complementa.

As iniciativas mapeadas pelo Responsa são:

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  • Feiras orgânicas e da agricultura familiar
  • Lojas e feiras da economia solidária e do comércio justo
  • Grupos de produtores da economia solidária
  • Grupos de consumo responsável
  • Experiências de educação alimentar e nutricional
  • Experiências e pesquisas em agroecologia
  • Hortas comunitárias
  • Restaurantes que utilizam ingredientes orgânicos em seus cardápios

O Responsa possui ainda um espaço em que as pessoas podem facilmente compartilhar, com outros usuários do aplicativo, suas dúvidas e dicas sobre como consumir de maneira responsável. Nele, é possível trocar receitas para limpeza ecológica, formas de cozinhar com menos desperdício, dicas para economizar água ao fazer faxina ou para substituir refrigerante por sucos naturais para os filhos, entre outras possibilidades. Acompanhe as novidades do Responsa no facebook:

A chegada do Responsa acompanha ainda o lançamento do Portal do Consumo Responsável.

Consumo ResponsavelOutra iniciativa do Instituto Kairós e da Cooperativa EITA, também com a contribuição de organizações e movimentos de economia solidária, comércio justo e agroecologia.

Inédita no país, a proposta é reunir em um mesmo endereço eletrônico informações que permitam aos cidadãos conhecer e compreender as relações de produção e consumo e intervir em seu bairro, trabalho, escola ou município. No portal, será possível acessar três canais: mapa, notícias e biblioteca.

Icones Transp“Nossa ideia é que o portal sirva como um polo de conteúdo relacionado ao consumo responsável com notícias, materiais educativos, além do mapa que deu origem ao Responsa, convidando os cidadãos a se envolverem na prática” detalha Juliana.

O Portal e o aplicativo Responsa foram desenvolvidos principalmente com recursos da Secretaria Nacional de Economia Solidária do Ministério do Trabalho (SENAES/MTE), por meio de um projeto nacional do Instituto Kairós que fomenta a articulação entre produtores e consumidores responsáveis.

O Portal do Consumo Responsável e o aplicativo Responsa têm também o objetivo de estimular a prática e a discussão sobre o consumo responsável, propondo que as pessoas conheçam mais a respeito da origem e produção dos alimentos que consomem no seu dia-a-dia.

“O modo como consumimos financia toda uma cadeia de produção, distribuição, comercialização e consumo dos produtos, e cada vez mais as pessoas estão buscando alternativas ao modelo convencional. Só que elas acabam tendo dificuldades para conciliar este novo modo de consumir com o cotidiano corrido das cidades, pois é difícil encontrar informações sobre o que estamos comprando. O Responsa torna muito fácil ir direto a essas iniciativas que contribuem para uma vida e uma sociedade mais justas e sustentáveis. É por isso que dizemos que o uso do Responsa e do portal nos ajudam a dar passos rumo ao bem viver individual e coletivo”, explica Juliana.

Texto: Instituto Kairós, Eita, Agência Lema

Consumo Responsável em livro sobre Comércio Justo e Solidário

 

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Foi lançado o livro “Comércio Justo e Solidário no Brasil e na América Latina”, organizado pela Profa. Joana Stelzer (UFSC) e pela Rosemary Gomes, da Plataforma Faces Do Brasil. A obra conta com  texto que as pesquisadoras Thais Mascarenhas e Juliana Gonçalves, do Instituto Kairós, escreveram sobre os Grupos de Consumo Responsável. Essas experiências não poderiam faltar como práticas de consumidores que se baseiam nos princípios do Comércio Justo e Solidário.

  Download do livro aqui: <https://arquivos.ufsc.br/f/c9ad8e0766/?raw=1>Texto sobre os GCRs nas pp.119-139.